terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Episiotomia - Um cortezinho nada inocente.

Episiotomia, incisão no períneo para alargar a abertura vaginal, é intervenção criada após a introdução da posição deitada no momento do parto. Sem qualquer estudo que a sustenta e muita evidência científica contra a persistência da episiotomia de rotina é uma das grandes incógnitas da obstetrícia medicalizada.

Supostamente para evitar ferimentos, praticada indiscriminadamente a muitas mulheres, é um "cortezinho limpo" que evita graves lesões perineais e é também um dos maiores mitos entre muitos profissionais.

Na verdade, muitas lacerações profundas correspondem exatamente à episiotomia. O principal argumento apoiando o uso da episiotomia é que "evita as lacerações." Mas hoje, considera-se que as principais causas de desgaste grave é a posição de litotomia, a dilatação forçada quimicamente, os puxos dirigidos e, acima de tudo, a episiotomia. Anos atrás, um dos argumentos favoritos pelos defensores era que a episiotomia impedia danos à cabeça do bebê ao passar pelo canal do parto. Como se a vagina fosse cimento! Certamente, a freqüência de uso de fórceps durante tantos anos contribuiu para a popularidade desta incisão.


Quando a mãe está deitada e é obrigada a empurrar o bebê sobre uma grande área de atrito e contra a gravidade é mais fácil de sofrer laceração nos tecidos profundos, mas se a mulher tem liberdade de movimento, encontra sempre a posição em que a tensão da vulva é menor.
Quando a mulher se inclina para a frente, por exemplo, ou se apoia em alguém, os músculos do interior das coxas podem relaxar e dilatar o períneo mais facilmente. Mesmo quando ocorre alguma laceração, ainda é muito menor do que uma episiotomia.




Este corte do períneo ainda é realizada rotineiramente em alguns hospitais. Se existe liberdade de movimento às parturientes, se elas ficam na posição desejada, conseuquentemente a episiotomia fica limitada, elas raramente ultrapassam os 20%. Na Holanda, por exemplo, existe uma taxa de episiotomia em torno de 8%. Em algumas regiões européias, a taxa é de 6%, enquanto em outros chegam a quase 100%.

Quando o nascimento termina com um reflexo que progride espontaneamente, é muito raro ocorrer lacerações perineais, e quando ocorrem, são mais leves e se curam melhor do que uma episiotomia. Portanto, expulsivos espontâneos, como os que ocorrem na rua ou no carro, raramente são acompanhados por lacerações.


Consuelo Ruiz Velez-Frias, uma das parteiras que tem contribuído para dignificar as mulheres na Espanha, acredita que um dos fatores que influenciam a elasticidade do períneo é a forma como a mulher atinge a dilatação completa. Em seu texto "Como é tratado um parto em casa", Consuelo destaca a importância de permitir que mulheres dilatem no seu próprio ritmo, para que o períneo fique intacto, algo difícil de alcançar quando o parto é acelerado com ocitocina e submetido a um tempo artificialmente encurtado.

Não existem evidências que comprovem que a episiotomia seja realmente necessária, pelo contrário, o que se mostra é que a episio é uma das causas mais comuns de hemorragia pós-parto e infecção, aumenta significativamente a probabilidade de sofrer uma laceração grave e enfraquecer os músculos do pavimento pélvico, favorecendo condições, tais como incontinência e subsequente prolapso. Dr. Wagner, por muitos anos diretor de saúde materno-infantil da OMS, não hesita em qualificá-lo como "mutilação genital".

Quais as diferenças entre pré-eclâmpsia e eclâmpsia?




O que é pré-eclâmpsia/eclâmpsia?

O feto é um corpo parcialmente estranho ao organismo da mulher, porque metade genética dele proveio do pai. Normalmente a mulher desenvolve mecanismos que o protegem e não o rejeitam. Em alguns casos, porém, ele pode liberar na corrente sanguínea da mãe substâncias que ocasionam vasoconstrição e aumento da pressão arterial. Este estado é chamado pré-eclampsia e causa, além da elevação da pressão arterial, aumento da albuminúria (presença de albumina na urina), cefaleia persistente, edema, oligúria (diminuição da urina), vertigens, zumbidos, fadiga, sonolência e vômitos, entre outros sintomas. A eclâmpsia é uma complicação ainda mais grave da gestação, que consiste em convulsões repetidas, seguidas de um estado comatoso. Geralmente a eclâmpsia ocorre no último trimestre da gestação, mas pode aparecer antes disso, durante ou após o parto.
Não há uma evolução linear entre as duas doenças e, ao contrário do que se pensava antigamente, a eclâmpsia não é uma evolução da pré-eclâmpsia. A maioria das mulheres com pré-eclâmpsia não irá apresentar eclâmpsia. A eclâmpsia na verdade é apenas uma manifestação grave da pré-eclâmpsia.

Quais são as causas da pré-eclâmpsia/eclâmpsia?

Ainda não se conhece corretamente as causas da pré-eclâmpsia/eclâmpsia, mas sabe-se que a placenta tem grande influência na produção do quadro. Uma das teorias diz que a pré-eclâmpsia/eclâmpsia ocorre em razão de uma vascularização imperfeita da placenta, que causa uma isquemia. A placenta em sofrimento produz substâncias que, ao caírem na circulação sanguínea materna, causam descontrole da pressão arterial e lesão nos rins.

Alguns fatores favorecem o aparecimento da pré-eclâmpsia/eclâmpsia. São eles:
  • Idade acima de 35 a 40 anos.
  • História familiar para a condição.
  • Intervalo de tempo muito longo entre as gestações.
  • Primeira gestação.
  • Ser afrodescendente.
  • Ter diabetes mellitus, hipertensão arterial (pressão alta), doença renal, lúpus, obesidade.
  • Gestação de mais de um feto ao mesmo tempo.
  • Gravidez na adolescência.
Quais são os sinais e sintomas da pré-eclâmpsia/eclâmpsia?

A pré-eclâmpsia pode ser assintomática, mas quando há sintomas, os principais são:
  • Inchaço.
  • Aumento rápido de peso, devido ao acúmulo de líquidos (cerca de 1kg por semana).
  • Hipertensão arterial.
  • Proteinúria (presença de proteínas na urina).
Em casos mais sérios podem ocorrer dores de cabeça, dores estomacais, taquicardia, presença de sangue na urina e alterações visuais.
Na eclâmpsia propriamente dita podem ocorrer, em razão do aumento considerável da pressão arterial, hemorragias vaginais, dores de cabeça, convulsões e coma.

Como o médico diagnostica a pré-eclâmpsia/eclâmpsia?

O diagnóstico da pré-eclâmpsia/eclâmpsia é feito por meio de uma detalhada história clínica e baseia-se nos níveis elevados da pressão arterial e nos exames laboratoriais da paciente. Além disso, na eclâmpsia, ocorrem os sintomas próprios do quadro. Muito frequentemente esse diagnóstico é feito durante o acompanhamento pré-natal. Essa é mais uma das razões que tornam esse acompanhamento tão importante.

Como o médico trata a pré-eclâmpsia/eclâmpsia?

O tratamento deve começar por um acompanhamento pré-natal regular. As pacientes com diagnóstico de pré-eclâmpsia devem ser submetidas a repouso, controle da pressão arterial e adoção de uma dieta com pouco ou nenhum sal. Nos quadros mais graves pode ser aconselhada a internação e a administração de medicamentos anti-hipertensivos e anticonvulsivantes.
A eclâmpsia propriamente dita sempre exigirá a internação, medicações venosas anticonvulsivantes e anti-hipertensivas e, geralmente, interrupção da gravidez.

Como prevenir a pré-eclâmpsia/eclâmpsia?

Pode-se tentar prevenir a eclâmpsia por meio de uma assistência pré-natal adequada que recomende muita ingestão de água e abstinência ou redução drástica da ingestão de sal.
Uma atenção especial deve ser dispensada aos grupos de risco.
Nos casos mais graves, podem ser adotadas medidas preventivas, como suporte cardiorrespiratório, emprego de anticonvulsivantes, tratamentos anti-hipertensivos e antecipação do parto.

Como evoluem as pré-eclâmpsias/eclâmpsias?

Um grande número de gestantes com eclâmpsia apresentará complicações graves, com risco de morte, pelo que geralmente é indicada a indução do parto. O término da gravidez é o único tratamento curativo. Nas mulheres com gestação menor que 32 semanas pode se indicar a cesariana.
A doença regride espontaneamente com a retirada da placenta.

Fonte: ABC med

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Prolapso de cordão por amniotomia precoce - por Melania Amorim

Recentemente li o livro "A queda - As memórias de um pai em 424 passos, de Diogo Mainardi." 

 E me lembrei de um post do Blog da Dra Melania - Estuda Melania, Estuda! que esclarece muito bem o ABSURDO que aconteceu com essa família. O livro é ótimo e o texto do blog então nem se fala! 

Prolapso de cordão por amniotomia precoce - o caso do filho do Diogo Mainardi



Leio com atenção o novo livro de Diogo Mainardi: "A QUEDA - As memórias de um Pai em 424 passos". No livro o autor aborda a sequência de eventos que levaram ao nascimento de seu filho Tito com asfixia perinatal grave, em consequência da qual resultou uma paralisia cerebral do tipo tetraplégica espástica, em uma forma leve.

Sempre me interessei por todas as (belas) crônicas com que o autor descreveu sua reação diante do diagnóstico e depois o tratamento de um filho com paralisia cerebral, desde a publicação de "Meu Pequeno Búlgaro", em um texto de 9 de maio de 2001:


Não estou interessada e nem irei abrir espaço neste blog para discutir o estilo literário e as opiniões políticas do ex-colunista da Veja. O que me interessa, como obstetra, cientista e mãe, é discutir as causas da paralisia cerebral de Tito e como elas se encaixam dentro do atual modelo de assistência ao parto, tecnocrático e intervencionista, vigente em muitos hospitais, e não apenas na Scuela Grande di San Marco, em Veneza.

O que aconteceu na assistência ao parto de Anna, a esposa de Mainardi, em 30 de setembro de 2000, quando os dois foram admitidos no hospital de Veneza? Uma obstetra, que ele descreve como doctoressa F, resolveu acelerar o nascimento de Tito através de uma amniotomia (ruptura artificial das membranas)

Detalhe: de acordo com o que está escrito no prontuário o colo uterino de Anna ainda estava impérvio, e a apresentação cefálica alta (estação -3 de DeLee) e móvel. Na verdade, possivelmente Anna estava ainda em pródromos e sequer tinha indicação de ficar internada. Também não havia qualquer indicação de antecipar o nascimento.


Mas a amniotomia foi realizada e, como vocês podem ler na figura que escaneei acima (páginas 28 e 29 do livro), quando a dotoressa F rompeu a bolsa das águas, ocorreu um prolapso de cordão umbilical, o cordão umbilical, como o Mainardi descreve, foi "esmagado" e, em decorrência, Tito sofreu asfixia perinatal grave. A cardiotocografia descreve uma queda importante - e sustentada - da frequência cardíaca fetal (FCF) de 160bpm após a amniotomia para 60bpm, em um padrão de bradicardia persistente.

Amniotomia

Nesse momento, a obstetra não estava ao lado do casal. A enfermeira foi buscá-la, juntas desligaram o monitor e ligaram outro e finalmente, depois de um atraso considerável, encaminharam Anna para a sala de cirurgia. A cesariana foi realizada 45 minutos depois da primeira queda de seus batimentos cardíacos. De acordo com o autor, os peritos médico-legais que avaliaram o caso definiram que uma cesariana de emergência, como indicada na condição em tela, teria de ocorrer em menos de 20 minutos.

Prolapso de cordão

Não está descrito no livro, mas como seriam eventos impossíveis de esquecer, eu presumo que também não foram feitas as manobras de ressuscitação intrauterina nem adotada a posição de "prece maometana", medidas recomendadas para aliviar a compressão do cordão enquanto se providencia a cesariana de emergência. Outra alternativa seria a posição de Sims exagerada, como demonstramos nas figuras abaixo:

 Posição de prece maometana
Posição de Sims exagerada

A ressuscitação intrauterina consiste em uma série de procedimentos para melhorar o fluxo fetoplacentário em casos de FCF não tranquilizadora, enquanto não se realiza o parto de emergência: mudar o decúbito, suspender ocitocina, expansão volêmica, administrar oxigênio à mãe e administrar terbutalina subcutânea para reduzir/suprimir as contrações uterinas. No caso do prolapso de cordão, a mudança de decúbito é orientada conforme apresentamos acima. 

Para estudar sobre ressuscitação intrauterina, recomendo o excelente artigo abaixo citado:



Porém, independente de terem sido ou não tomadas essas medidas, o que mais chama a atenção no caso do filho do Diogo Mainardi é que a amniotomia precoce foi completamente mal indicada e desnecessária.

Vejam essa recomendação de um hospital australiano:

E esse artigo em francês sobre a conduta no prolapso de cordão e os desfechos neonatais: analisaram-se 57 casos de prolapso de cordão, uma incidência de 1,25 para casa 1.000 nascimentos. Prolapso de cordão se associou com amniotomia em 42% dos casos! Prolapso de cordão se associou com 26% de casos de escores de Apgar menores que 7 no quinto minuto e admissão em UTI neonatal. Os desfechos neonatais foram melhores quanto menor o tempo entre o diagnóstico e o nascimento. Para a maioria dos casos, exceto quando a dilatação está completa e o período expulsivo pode ser abreviado com fórceps ou vácuo-extração, isso é sinônimo de cesariana dentro de no máximo 20 minutos. 


A melhor estratégia de prevenção primária nos casos de gestação única com feto em apresentação cefálica é NÃO realizar amniotomia de rotina, mesmo que presentes condições para praticá-la, isto é, dilatação avançada e apresentação fetal encaixada na pelve. A revisão sistemática disponível na Biblioteca Cochrane NÃO recomenda a amniotomia como procedimento de rotina na assistência ao parto, uma vez que não há quaisquer efeitos benéficos associados com essa prática:

A Organização Mundial de Saúde também não recomenda amniotomia de rotina na assistência ao parto:


Em alguns casos em que a amniotomia pode estar indicada para correção de distocias, todos os cuidados devem ser tomados para evitar seus efeitos deletérios. Deve-se ter uma dilatação mínima de 4cm, apresentação cefálica encaixada (NUNCA realizar o procedimento com apresentação alta e móvel, exceto em casos de feto morto) e, logo depois do procedimento, os dedos permanecem dentro da vagina permitindo o escoamento lento do líquido amniótico e verificando se não ocorreu o prolapso de cordão. O procedimento é contraindicado se já há diagnóstico prévio de procidência de cordão.


Amniotomia precoce é causa relativamente comum de prolapso de cordão iatrogênico e, portanto, não se justifica à luz das evidências atuais.

É importante apresentar os detalhes desse caso como um exemplo típico de má prática associada com intervenções desnecessárias durante o trabalho de parto. Não havia qualquer indicação de se realizar amniotomia em pródromos!

Devemos destacar que apenas 10% dos casos de paralisia cerebral se associam com asfixia perinatal e, ao contrário do que julga o senso comum, não é o parto vaginal o principal vilão da paralisia cerebral, uma vez que na maior parte dos casos causas antenatais (sobretudo prematuridade e intercorrências obstétricas) podem ser identificadas.  

No entanto, a incidência de asfixia perinatal no Brasil é bem mais elevada do que em outros países (6-7 por 1.000 nascimentos) e há ainda muitos casos iatrogênicos de paralisia cerebral, não pelo parto vaginal per se, mas pelo mau uso de práticas e procedimentos como infusão exagerada de ocitocina, amniotomia e ausência de monitorização da FCF durante o trabalho de parto e manobra de Kristeller (pressão fúndica) durante o período expulsivo. Também é pouco frequente a realização de ressuscitação intrauterina em casos de FCF não tranquilizadora. 

O caso do Tito ocorreu na Itália, mas certamente muitos casos semelhantes ocorrem diuturnamente no Brasil. A história de superação da família Mainardi me comove e inspira, porque os pais acolheram com Amor a deficiência do pequeno Tito e envidaram todos os esforços para incentivar o seu desenvolvimento, e isso deve servir de exemplo para todos os pais que lidam com um filho especial. Amá-lo incondicionalmente, não apesar da deficiência, mas amá-lo com a deficiência. Como diz o Mainardi, "nós amávamos tanto o Tito que passamos a amar a própria paralisia cerebral".


No entanto, por mais que amemos os nossos filhos especiais, e mesmo que não possamos prevenir TODOS os casos de paralisia cerebral, temos o dever e a obrigação de evitar a paralisia cerebral iatrogênica. 

Que a divulgação desse caso possa fazer com que muitos obstetras reflitam antes de usar o amniótomo, porque na grande maioria das vezes a amniotomia é desnecessária e pode ser prejudicial. Volto a insistir na minha campanha contra as intervenções obstétricas de rotina: TIRE A MÃO DAÍ!

Caminha, Tito, caminha! Possam os teus passos te levar, qual Buzz Lightyear, ao infinito e além, abrindo caminho para um novo mundo em que outras crianças não tenham que passar pelo que passaste.

E por que tanta cesárea? - Por Ana Cristina Duarte


Mais um maravilhoso texto escrito por Ana Cris...


 
O problema das cesarianas no Brasil tem quase infinitas bases. Vamos a algumas.

Pagamento por produtividade: muitos plantões médicos são remunerados por produtividade, ou seja, se nascer no plantão, a grana vai para aquele plantão. Se não nascer antes de terminar o plantão, se passar para o plantão seguinte, quem ganha o valor do parto é a equipe do plantão seguinte. O médico que passou o dia ali aguardando o parto e resolveu não operar, não ganha nada.

"Limpeza do plantão": prática que ocorre em muitos hospitais, onde o obstetra opera todas as mulheres antes de terminar o plantão, para terminar o dia com tudo "limpo", sem mulheres em trabalho de parto para a equipe que assume em seguida. Também acontece muitas vezes perto das 23h-0h, para que a equipe possa ir dormir sem ser incomodada durante a noite.

Falta de anestesista ou de obstetra: em muitas cidades pequenas não há equipes morando no local. Então, para que não haja risco da mulher entrar em trabalho de parto em um dia que não tem médico na cidade, agendam-se todas as cesarianas para o dia da semana em que os médicos estão de plantão.

Falta de especialistas: em hospitais em que se atendem nascimento de bebês de alto risco, como não há especialistas de plantão 24/7, os médicos preferem marcar as cesarianas para os dias e horários onde os especialistas estão presentes no hospital, assegurando assim que o recém nascido possa ser imediatamente atendido.

Pacotinho cesárea no SUS: alguns médicos ainda têm a prática (ilegal) de vender cesarianas a serem efetuadas dentro do SUS. A mulher paga direto para o médico, em dinheiro, e ele agenda a cesárea.

Ausência de analgesia de parto: apesar do direito legal à analgesia, na prática as mulheres não têm direito. E diante da ameaça de um parto torturante, com todo tipo de intervenção, e sem o direito a alívio da dor, as mulheres preferem fugir do parto normal oferecido no SUS.

Falta de experiência: muitos hospitais escolas, como o Hospital das Clínicas de São Paulo, por exemplo, ostentam taxas de cesáreas próximas de 65%, ou até mais. Em geral isso se dá pela falta de experiência da equipe em lidar com o parto normal em situações diferenciadas como o parto de gêmeos, parto de bebês grandes, de prematuros, de mulheres com cardiopatias ou outras doenças. Sem conseguir aplicar as evidências diretamente, quer por medo, quer por falta de prática, acabam recorrendo à cesariana com muita facilidade. No final os médicos saem sabendo fazer cirurgias, mas não sabem atender um parto fisiológico, sequer conhecem os tempos de um parto natural, sem indução.

Estrutura dos hospitais privados: o que faz o lucro das maternidades privadas é o agendamento prévio das cesarianas. Os hospitais não só recebem mais dos planos de saúde por esses procedimentos como também conseguem maximizar o uso dos leitos. Convém lembrar que a UTI neonatal e o banhos de luz são igualmente muito bem remunerados pelos seguros e planos, de modo que a cesariana acaba sendo, de longe, o mais lucrativo dos procedimentos de maternidade. O parto normal ocupa salas e enfermagem por muito tempo, tem pior remuneração pelos planos de saúde e é necessário que o hospital tenha vários leitos disponíveis, sem ocupação, aguardando mulheres que podem ou não entrar em trabalho de parto.

Medo das mulheres: depois de ouvir depoimentos incontáveis de violência obstétrica sofrida por conhecidas, muitas mulehres preferem juntar um pouco de dinheiro e pagar por uma cesariana agendada. Apesar dos riscos, apesar da dor da recuperação, não ter que passar por humilhação, dor, ocitocina, exposição, vergonha, compensa qualquer sacrifício, inclusive o financeiro. Uma cesariana hoje pode ser comprada por R$ 2.000,00 em várias cidades.

Remuneração (falta de): os planos de saúde pagam por volta de R$ 300 reais por um parto. Não compensa financeiramente para o médico conveniado. A solução é marcar mais de uma cesárea num só dia, sem comprometer o consultório e a vida privada. Alguns são honestos e já falam logo de cara. Outros vão seguindo o pré natal com frases vagas sobre o parto e no ultrasom de 37 semanas acabam "descobrindo" uma boa razão para marcar a cesariana para a semana seguinte. O parto normal pode até ter uma melhor remuneração, mas não é um prêmio de R$ 100 reais que fará um médico abdicar de sua agenda, vida familiar, consultório, plantão, para trocar três cesarianas marcadas, por três fins de semana dentro de um centro obstétrico.

Medo do parto: muitos obstetras tem medo do parto normal e acham a cesariana mais "controlável". Apesar de todas as evidências científicas, acabam sendo contaminados e às vezes congelados por experiências traumatizantes do passado. Não só não conseguem mais aguardar o parto, como recomendam a cirurgia cesariana para amigas, partentes, esposa, etc..

Litigância (medo de processo): historicamente no Brasil não se processa um médico por um mau resultado em uma cesariana, afinal ele fez todo o possível, usou a máxima tecnologia. No entanto qualquer resultado ruim de um parto normal é visto imediatamente como erro médico e os processos encaminhados ao CRM. Se um médico tira um bebê de 38 semanas e este vai para a UTI por desconforto respiratório, a sociedade em geral acha que ele salvou o bebê. Se um médico aguarda um parto normal e o bebê tem paralisia cerebral, não podendo (e não há como) provar que o evento foi anterior ao parto, a culpa certamente recairá sobre o parto.

Cultura da cesariana: na sociedade em geral, mesmo entre pessoas de grau educacional elevado, a cesariana é vista como algo melhor, mais seguro, normalizado, banalizado. Nas camadas menos favorecidas, ela é vista como bem de consumo, algo que só as mulheres ricas possuem, e que portanto deve ser melhor, mais desejável. A cesariana está nas TVs, novelas, nas resistas para mães (Sem Culpa). O parto normal é retratado como a opção nobre porém sofrida. Coisa de personagem que se perde na tempestade e vai parar numa choupana. As atrizes e famosas fazem cesariana.

Desinformação gerando medo: as mulheres tem pouca informação sobre o processo de gravidez e muitas ficam imersas no medo de algo acontecer. Esse medo inominável e incomensurável também é congelante e não permite que as mulheres duvidem de seus médicos, quando esses indicam a cesariana por "cordão enrolado", ou que enfrentem a família/marido e escolham outro obstetra no final da gestação. O medo é tão grande que basta a promessa de salvação feita por seu médico para que ela entregue seu corpo e todo o seu poder a essas mãos alheias.

Inoperância da ANS: a Agência Nacional de Saúde Suplementar, que deveria regular as práticas erradas no setor privado simplesmente ignora o problema, ou promove medidas tão inefetivas, que o resultado tem sido, nos últimos anos, contrário ao desejado, ou seja, aumento das taxas de cesariana. Com programas que dão pontos positivos, mas não encontram soluções efetivas, o fato é que os planos de saúde não vêem qualquer razão para saírem da zona de conforto dos 90% de cesarianas.

Conivência do Ministério da Saúde: a força com que o M.S. lutou pela amamentação no Brasil, e que poderia ter sido utilizada também na luta pelo direito a um parto digno para todas as mulheres, simplesmente esmorece ou nem chega a ser recrutada. É como se não fosse conveniente entrar em confronto com determinados setores. Por isso as medidas são sempre amenas, de "sedução", promessas de verba para reformas de centros obstétricos. Apesar de que essas medidas também são bem-vindas, o fato é que não haverá mudança significativa nas práticas sem medidas radicais do Ministério da Saúde.

Entre outras medidas precisamos (em ordem aleatória):

1) Segunda opinião na indicação da cesariana
2) Plantões nos hospitais privados que permitam um parto humanizado e digno a uma mulher que opte por usar o médico plantonista ao invés de seu obstetra do plano (mal remunerado)
3) Fiscalização de prontuários por comissões específicas (existem indícios de que a indicação da cesariana muitas vezes não casa com o que foi dito à gestante para justificar a cirurgia)
4) Planos de saúde começarem a glosar as cesarianas sem indicação
5) Fiscalização pelos planos de saúde das UTIs neonatais (onde parte razoável dos bebês está internada por desconforto respiratório advindos de cesarianas eletivas não necessárias)
6) Programas dos planos de saúde para partos humanizados, com direito a analgesia peridural a pedido materno.
7) Remuneração dos planos de saúde para partos normais atendidos por enfermeiras obstetras e obstetrizes
8) Direito de internação de gestante para parto com enfermeiras obstetras/obstetrizes
9) Direito à informação clara sobre as taxas de cesariana de cada hospital e cada médico credenciado dos planos de saúde
10) Humanização DE FATO dos partos no SUS, aumento dos Centros de Parto Normal geridos e atendidos por enfermeiras obstetras/obstetrizes, no paradigmas do parto humanizado, natural, com o menor número possível de intervenções, com a presença de acompanhante e doula (se desejado).
11) Direito à analgesia peridural no SUS
12) Treinamento médico adequado para o parto natural, fisiológico
13) A ANS deve estabelecer metas para redução de cesarianas, e prazos para o cumprimento das metas. Se os prazos não forem cumpridos, cabem multas aos planos de saúde. A agência pode até fornecer um estudo específico para a aplicabilidade de medidas de redução de cesariana, e propor a redução gradual: de 92% para 70% no primeiro ano, 50% no segundo, etc. EXIGÊNCIA do plantão presencial multiprofissional (obstetra, neonatologista, anestesiologista) e multidisciplinar (EOs e obstetrizes) que devem ser disponibilizados em todos os planos de saúde.
14) Ministério da Saúde precisa se posicionar claramente a respeito do serviço privado. A ANS gerencia planos, não prestadores privados. É preciso gerenciamento do setor privado, tanto quanto do público. Há que se exigir resultados.
15) A ANVISA precisa rever a RDC 36, que regulamenta funcionamento de serviços obstétricos. A imensa maioria dos hospitais brasileiros não segue as diretrizes. E a complexidade para os serviços de baixo risco acabam inviabilizando que se faça uma casa de parto privada nos moldes das européias. O custo básico inviabiliza.

Neste exato momento, sem medidas drásticas por nenhum setor, as taxas de cesariana no Brasil continuarão subindo, assegurando ao nosso país o título eterno de Campeão Mundial.

Fonte: Texto publicado no Facebook da Ana Cris

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Testando seu médico

 



Essa é uma lista bem humorada de perguntas a se fazer ao seu obstetra. Na verdade é um teste para verificar que tipo de médico ele é: do mais intervencionista ao mais liberal. Apesar do tom informal, as “respostas certas” foram inspiradas nas evidências científicas e nas recomendações da Organização Mundial da Saúde.


1) Qual a sua postura em relação à “cesárea x parto normal”?
a) O parto normal é o melhor, mas só dá para saber na hora.
b) Hoje em dia não faz sentido ter bebê por parto normal, com as técnicas de cirurgia tão avançadas e seguras. A recuperação é rápida e graças aos novos antibióticos, antinflamatórios, antitérmicos e analgésicos, você pode ter uma vida quase normal em menos de 2 meses.
c) O parto normal é melhor, mas na sua idade (ou com o seu peso, ou nessa época do ano, ou para uma pessoa sensível como você) a cesárea é mais garantida.
d) O parto normal é melhor e pelo menos 90% das mulheres podem dar à luz naturalmente. Você também tem tudo para ter um parto normal e nós vamos nos preparar para isso!

2) Quais intervenções no parto você considera essenciais?
a) O que eu uso nos partos é o soro com ocitocina (hormônio) para acelerar as contrações, episiotomia (corte no períneo) e rompimento da bolsa aos 5 cm de dilatação. Mas às vezes tenho outras idéias durante o parto. Depende do dia e dos meus compromissos.
b) Eu uso as intervenções apenas em raros casos, até porque a maioria delas podem ter efeitos colaterais indesejáveis. A natureza pensou em tudo, para a grande maioria das mulheres.
c) Só a anestesia, porque acho que a mulher não deve sentir dor. O resto varia de mulher para mulher.
d) Só a episiotomia, porque o parto pode destruir a vagina da mulher e provocar incontinência urinária.

3) Em que posição posso dar à luz? Posso ter um parto de cócoras?
a) Ra ra ra ra…. Parto de cócoras? Você não é índia, é? A mulher de hoje não tem musculatura para ficar de cócoras. Você quer ser partida ao meio, minha filha?
b) Semi-reclinada, pois no centro obstétrico da maternidade onde atendo, tem uma mesa de parto que permite que a paciente eleve um pouco as costas.
c) Da forma que você se sentir mais confortável, podendo ser de cócoras, de quatro, de lado ou de outro jeito que você inventar. A única posição que eu procuro não incentivar é deitada, porque o bebê pode ter o suprimento de oxigênio comprometido.
d) Como assim? Existe outra posição para dar à luz que não seja deitada?

4) Qual será sua postura caso eu recuse alguns procedimentos que você esteja recomendando?
a) O parto é seu. Você decide o que é melhor. Se eu indicar um procedimento, vou te explicar porque, vantagens e desvantagens, mas quem tem que resolver é você.
b) Eu não recomendo procedimentos. Eu faço. Na hora do parto você não tem condições de discutir o que é bom para você. Aliás, desde o início da gravidez a mulher tem o comportamento alterado, bem como a capacidade de discernimento.
c) Eu terei que abandonar o atendimento e chamar um plantonista, pois não quero me responsabilizar pelas desgraças que podem acontecer ao seu bebê.
d) Você não tem o direito de recusar um procedimento que está sendo prescrito para o bem do seu bebê.

5) Até quanto tempo você espera na gestação, antes de indicar procedimentos por “passar da data”?
a) Eu espero até 40 semanas. Depois disso faço a cesárea. Nem tento a indução, porque é tempo perdido. Ou você prefere arriscar a vida do seu filho e viver com esse peso pro resto dos seus dias?
b) A gestação normal vai de 38 a 42 semanas. O que eu proponho é um cuidado mais intenso depois que passa de 41 semanas. Mas a princípio, enquanto o bebê e a placenta estiverem bem, eu não faço nada. Passadas 42 semanas, podemos começar a pensar em indução do parto.
c) Eu espero até 40 semanas. Depois disso interno para induzir com soro.
d) Eu espero até 41 semanas e depois interno para induzir com citotec.

6) Você tem o hábito de pedir permissão e informar tudo o que você acha necessário fazer durante a gestação e o parto?
a) Como assim, pedir permissão? Eu estudei 10 anos, trabalho há 15 anos com partos e sei o que estou fazendo. Se for pedir permissão para fazer tudo, vou passar o dia nessa lenga-lenga com minhas pacientes.
b) Só peço permissão quando acho que o procedimento vai doer.
c) Não faço nem um exame vaginal sem pedir permissão, pois o corpo é seu, o parto é seu. Meu dever é fazer o melhor, desde que você me permita e entenda o que está acontecendo.
d) Depende do dia, pois às vezes depois de 2 plantões seguidos, eu fico meio impaciente.

7) Qual é a sua taxa de cesáreas?
a) Não sei, não tenho contado ultimamente… Se é alto? Não considero alto, porque hoje em dia as mulheres só querem cesárea. A culpa não é minha. Elas já chegam com uma idéia pré-concebida.
b) Minha taxa de cesárea é baixa, cerca de 40-45%…
c) A taxa é de 20%.. De partos normais..
d) Minha taxa de cesárea está perto de 25%, o que ainda considero alta, mas estou tomando algumas providências para tentar baixar para os 15% recomendados pela Organização Mundial da Saúde

8) Posso levar meu marido e uma acompanhante (doula) para o meu parto?
a) Por mim você pode levar qualquer pessoa que faça você se sentir segura e tranqüila.
b) Porque? Você vai dar uma festinha no centro obstétrico? Quer ver seu marido desmaiando? Eu acho que um acompanhante já é muito.
c) Pode levar só o marido, mas só depois que ele fizer a preparação comigo, porque eu quero um aliado, não um inimigo me vigiando.
d) Não, eu acho que acompanhantes atrapalham, perturbam o ambiente, fazem muita pergunta, deixam a mulher insegura, ficam questionando o médico. Eu não atendo a família, eu atendo a gestante!

9) Você acha possível um parto normal depois de uma cesárea?
a) Você está louca? Quem andou falando uma bobagem dessas para você? Deixa disso, minha filha, isso é coisa de natureba inconseqüente.
b) É possível, mas tem que usar fórceps para não ter um período expulsivo prolongado.
c) É possível se o trabalho de parto não passar de 4 horas.
d) É possível e é uma ótima opção, com grandes chances de dar certo.

10) Você acha que tendo uma gestação de baixo risco posso ter meu bebê em casa?
a) Sim, o local do parto deve ser escolhido por você e seu marido. Se essa f or sua opção, devemos tomar algumas precauções, como ter um hospital relativamente perto para o caso de precisarmos de remoção. Mas geralmente não há necessidade.
b) Sim, mas eu não atendo partos domiciliares. Posso tentar te indicar um médico que faça.
c) Você enlouqueceu? Quer matar seu bebê? Quer se matar? Já pensou como é agradável sangrar até a morte com sua família te olhando sem ter o que fazer?
d) Sim, mas é muito arriscado. Muito mesmo. Você está com idéias muito românticas sobre o parto. Deveria fincar os pés no chão.

11) Devo fazer um curso de preparação para o parto?
a) É bom, não porque você não sabe o que é certo, mas o curso vai te dar dicas preciosas, vai te dar boas sugestões para um parto agradável, vai te dar dicas de amamentação. No mais, você vai entrar em contato com outras gestantes, o que pode ser uma experiência bastante enriquecedora.
b) Bobagem. Na hora eu te digo o que é certo ou errado. Eu estudei 10 anos, pratiquei mais 15 e te garanto que sei fazer um parto. É só você ficar deitada quietinha que tudo vai dar certo.
c) Faça apenas o curso do hospital, para saber onde é a entrada, como são as rotinas do hospital, como se comportar e o que esperar.
d) Tanto faz. Você também pode ler essas revistas para mãezinhas que tem todas as dicas que você precisa de enxoval, decoração, exames médicos e tal.

12) Quantos exames de ultrassom eu devo fazer ao longo da gestação?
a) O ideal é fazer em todas as consultas e por isso eu já tenho um aparelho aqui no consultório. A gente já vai vendo a carinha do bebê, como ele se mexe, todas as partes do corpo e tudo o mais.
b) Você deve fazer pelo menos 4 para ver se o crescimento do bebê está bom.
c) Eu recomendo fazer o menor número possível de exames, pois ainda não foi totalmente provado que o ultrassom é inóquo. Algumas pesquisas apontam para uma posssível alteraçao no cérebro em bebês que passam por muitos exames na gestação. Só vou pedir esses exames se tivermos que confirmar algum diagnóstico.
d) O máximo que o seu plano de saúde permitir antes de vir aqui me atazanar a paciência.

Resultados – some os pontos:
1- a(2) / b(1) / c(2) / d(3)
2- a(1) / b(3) / c(2) / d(2)
3- a(1) / b(2) / c(3) / d(1)
4- a(3) / b(1) / c(2) / d(1)
5- a(1) / b(4) / c(2) / d(3)
6- a(1) / b(2) / c(3) / d(1)
7- a(1) / b(2) / c(1) / d(3)
8- a(3) / b(1) / c(2) / d(1)
9- a(1) / b(2) / c(2) / d(3)
10- a(3) / b(2) / c(1) / d(2)
11- a(3) / b(1) / c(2) / d(1)
12- a(1) / b(2) / c(3) / d(1)


Se seu médico fez entre 12 e 20 pontos: Fuja, saia correndo, ligue dizendo que você não está grávida, era um engano, foi apenas má digestão. Você tem certeza que ele tem um diploma válido em território nacional? Ter um parto com esse médico e sair ilesa é tão garantido quanto acertar na Megasena, sem ter comprado um bilhete.

Se seu médico fez entre 21 e 30 pontos: É melhor você trocar de médico e procurar alguém mais antenado com as novas tendências em atendimento obstétrico. Seu médico pode até ser bem intencionado, mas definitivamente é mal informado. Pode ser que dê um bom ginecologista, mas como parteiro deixa muito a desejar!

Se seu médico fez entre 31 e 37 pontos: O cara é fera, conhece e aplica as recomendações da Organização da Saúde e as evidências científicas. Aparentemente evita procedimentos médicos que podem atrapalhar o trabalho de parto. É respeitoso e honesto. Parece um cara do bem, um bom partido. Me arruma o telefone dele?

Por Ana Cristina Duarte - Obstetriz

Seu bebê tem cólica...será? - por Carlos González




Os bebês ocidentais costumam chorar bastante durante os primeiros meses, o que se conhece como cólica do lactente ou cólica do primeiro trimestre. Cólica é a contração espasmódica e dolorosa de uma víscera oca; há cólicas dos rins, da vesícula e do intestino. Como o lactente não é uma vesícula oca e o primeiro trimestre muito menos, o nome logo de cara não é muito feliz. Chamavam de cólica porque se acreditava que doía a barriga dos bebês; mas isso é impossível saber. A dor não se vê, tem de ser explicada pelo paciente. Quando perguntam a eles: “por que você está chorando?”, os bebês insistem em não responder; quando perguntam novamente anos depois, sempre dizem que não se lembram. Então ninguém sabe se está doendo a barriga, ou a cabeça, ou as costas, ou se é coceira na sola dos pés, ou se o barulho está incomodando, ou simplesmente se estão preocupados com alguma notícia que ouviram no rádio. Por isso, os livros modernos frequentemente evitam a palavra cólica e preferem chamar de choro excessivo na infância. É lógico pensar que nem todos os bebês choram pelo mesmo motivo; alguns talvez sintam dor na barriga, mas outro pode estar com fome, ou frio, ou calor, e outros (provavelmente a maioria) simplesmente precisam de colo.
Tipicamente, o choro acontece sobretudo à tarde, de seis às dez, a hora crítica. Às vezes de oito à meia-noite, às vezes de meia-noite às quatro, e alguns parecem que estão a postos vinte e quatro horas por dia. Costuma começar depois de duas ou três semanas de vida e costuma melhorar por volta dos três meses (mas nem sempre).
Quando a mãe amamenta e o bebê chora de tarde, sempre há alguma alma caridosa que diz: “Claro! De tarde seu leite acaba!”. Mas então, por que os bebês que tomam mamadeira têm cólicas? (a incidência de cólica parece ser a mesma entre os bebês amamentados e os que tomam mamadeira). Por acaso há alguma mãe que prepare uma mamadeira de 150 ml pela manhã e de tarde uma de 90 ml somente para incomodar e para fazer o bebê chorar? Claro que não! As mamadeiras são exatamente iguais, mas o bebê que de manhã dormia mais ou menos tranquilo, à tarde chora sem parar. Não é por fome.
“Então, por que minha filha passa a tarde toda pendurada no peito e por que vejo que meus peitos estão murchos?” Quando um bebê está chorando, a mãe que dá mamadeira pode fazer várias coisas: pegar no colo, embalar, cantar, fazer carinho, colocar a chupeta, dar a mamadeira, deixar chorar (não estou dizendo que seja conveniente ou recomendável deixar chorar, só digo que é uma das coisas que a mãe poderia fazer). A mãe que amamenta pode fazer todas essas coisas (incluindo dar uma mamadeira e deixar chorar), mas, além disso, pode fazer uma exclusiva: dar o peito. A maioria das mães descobrem que dar de mamar é a maneira mais fácil e rápida de acalmar o bebê (em casa chamamos o peito de anestesia), então dão de mamar várias vezes ao longo da tarde. Claro que o peito fica murcho, mas não por falta de leite, mas sim porque todo o leite está na barriga do bebê. O bebê não tem fome alguma, pelo contrário, está entupido de leite.
Se a mãe está feliz em dar de mamar o tempo todo e não sente dor no mamilo (se o bebê pede toda hora e doem os mamilos, é provável que a pega esteja errada), e se o bebê se acalma assim, não há inconveniente. Pode dar de mamar todas as vezes e todo o tempo que quiser. Pode deitar na cama e descansar enquanto o filho mama. Mas claro, se a mãe está cansada, desesperada, farta de tanto amamentar, e se o bebê está engordando bem, não há inconveniente que diga ao pai, à avó ou ao primeiro voluntário que aparecer: “pegue este bebê, leve para passear em outro cômodo ou na rua e volte daqui a duas horas”. Porque se um bebê que mama bem e engorda normalmente mama cinco vezes em duas horas e continua chorando, podemos ter razoavelmente a certeza de que não chora de fome (outra coisa seria um bebê que engorda muito pouco ou que não estava engordando nada até dois dias atrás e agora começa a se recuperar: talvez esse bebê necessite mamar muitíssimas vezes seguidas). E sim, se pedir para alguém levar o bebê para passear, aproveite para descansar e, se possível, dormir. Nada de lavar a louça ou colocar em dia a roupa para passar, pois não adiantaria nada.
Às vezes, acontece de a mãe estar desesperada por passar horas dando de mamar, colo, peito, colo e tudo de novo. Recebe seu marido como se fosse uma cavalaria: “por favor, faça algo com essa menina, pois estou ao ponto de ficar doida”. O papai pega o bebê no colo (não sem certa apreensão, devido às circunstâncias) , a menina apoia a cabecinha sobre seu ombro e “plim” pega no sono. Há várias explicações possíveis para esse fenômeno. Dizem que nós homens temos os ombros mais largos, e que se pode dormir melhor neles. Como estava há duas horas dançando, é lógico que a bebê esteja bastante cansada. Talvez precisasse de uma mudança de ares, quer dizer, de colo (e muitas vezes acontece o contrário: o pai não sabe o que fazer e a mãe consegue tranquilizar o bebê em segundos).
Tenho a impressão (mas é somente uma teoria minha, não tenho nenhuma prova) de que em alguns casos o que ocorre é que o bebê também está farto de mamar. Não tem fome, mas não é capaz de repousar a cabeça sobre o ombro de sua mãe e dormir tranqüilo. É como se não conhecesse outra forma de se relacionar com sua mãe a não ser mamando. Talvez se sinta como nós quando nos oferecem nossa sobremesa favorita depois de uma opípara refeição. Não temos como recusar, mas passamos a tarde com indigestão. No colo da mamãe é uma dúvida permanente entre querer e poder; por outro lado, com papai, não há dúvida possível: não tem mamá, então é só dormir.
Minha teoria tem muitos pontos fracos, claro. Para começar, a maior parte dos bebês do mundo estão o dia todo no colo (ou carregados nas costas) de sua mãe e, em geral, descansam tranquilos e quase não choram. Mas talvez esses bebês conheçam uma outra forma de se relacionar com suas mães, sem necessidade de mamar. Em nossa cultura fazemos de tudo para deixar o bebê no berço várias horas por dia; talvez assim lhes passemos a idéia de que só podem estar com a mãe se for para mamar.
Porque o certo é que a cólica do lactente parece ser quase exclusiva da nossa cultura. Alguns a consideram uma doença da nossa civilização, a consequência de dar aos bebês menos contato físico do que necessitam. Em outras sociedades o conceito de cólica é desconhecido. Na Coreia, o Dr. Lee não encontrou nenhum caso de cólica entre 160 lactentes. Com um mês de idade, os bebês coreanos só passavam duas horas por dia sozinhos contra as dezesseis horas dos norteamericanos. Os bebês coreanos passavam o dobro do tempo no colo que os norteamericanos e suas mães atendiam praticamente sempre que choravam. As mães norteamericanas ignoravam deliberadamente o choro de seus filhos em quase a metade das vezes.
No Canadá, Hunziker e Barr demonstraram que se podia prevenir a cólica do lactente recomendando às mães que pegassem seus bebês no colo várias horas por dia. É muito boa idéia levar os bebês pendurados, como fazem a maior parte das mães do mundo. Hoje em dia é possível comprar vários modelos de carregadores de bebês nos quais ele pode ser levado confortavelmente em casa e na rua. Não corra para colocar o bebê no berço assim que ele adormecer; ele gosta de estar com a mamãe, mesmo quando está dormindo. Não espere que o bebê comece a chorar, com duas ou três semanas de vida, para pegá-lo no colo; pode acontecer de ter “passado do ponto” e nem no colo ele se acalmar. Os bebês necessitam de muito contato físico, muito colo, desde o nascimento. Não é conveniente estarem separados de sua mãe, e muito menos sozinhos em outro cômodo. Durante o dia, se o deixar dormindo um pouco em seu bercinho, é melhor que o bercinho esteja na sala; assim ambos (mãe e filho) se sentirão mais seguros e descansarão melhor.
A nossa sociedade custa muito a reconhecer que os bebês precisam de colo, contato, afeto; que precisam da mãe. É preferível qualquer outra explicação: a imaturidade do intestino, o sistema nervoso… Prefere-se pensar que o bebê está doente, que precisa de remédios. Há algumas décadas, as farmácias espanholas vendiam medicamentos para cólicas que continham barbitúricos (se fazia efeito, claro, o bebê caía duro). Outros preferem as ervas e chás, os remédios homeopáticos, as massagens. Todos os tratamentos de que tenho notícia têm algo em comum: tem de tocar no bebê para dá-lo. O bebê está no berço chorando; a mãe o pega no colo, dá camomila e o bebê se cala. Teria seacalmado mesmo sem camomila, com o peito, ou somente com o colo. Se, ao contrário, inventassem um aparelho eletrônico para administrar camomila, ativado pelo som do choro do bebê, uma microcâmera que filmasse o berço, um administrador que identificasse a boca aberta e controlasse uma seringa que lançasse um jato de camomila direto na boca… Acredita que o bebê se acalmaria desse modo? Não é a camomila, não é o remédio homeopático! É o colo da mãe que cura a cólica.
Taubman, um pediatra americano, demonstrou que umas simples instruções para a mãe (tabela 1) faziam desaparecer a cólica em menos de duas semanas. Os bebês cujas mães os atendiam, passaram de uma média de 2,6 horas ao dia de choro para somente 0,8 horas. Enquanto isso, os do grupo de controle, que eram deixados chorando, choravam cada vez mais: de 3,1 horas passaram a 3,8 horas. Quer dizer, os bebês não choram por gosto, mas porque alguma coisa está acontecendo. Se são deixados chorando, choram mais, se tentam consolá-los, choram menos (uma coisa tão lógica! Por que tanta gente se esforça em nos fazer acreditar justo no contrário?).
Tabela 1 – Instruções para tratar a cólica, segundo Taubman (Pediatrics 1984;74:998)
1- Tente não deixar nunca o bebê chorando.
2- Para descobrir por que seu filho está chorando, tenha em conta as seguintes possibilidades:
a- O bebê tem fome e quer mamar.
b- O bebê quer sugar, mesmo sem fome.
c- O bebê quer colo.
d- O bebê está entediado e quer distração.
e- O bebê está cansado e quer dormir.
3- Se continuar chorando durante mais de cinco minutos com uma opção, tente com outra.
4- Decida você mesma em qual ordem testará as opções anteriores.
5- Não tenha medo de superalimentar seu filho. Isso não vai acontecer.
6- Não tenha medo de estragar seu filho. Isso também não vai acontecer.

No grupo de controle, as instruções eram: quando o bebê chorar e você não souber o que está acontecendo, deixe-o no berço e saia do quarto. Se após vinte minutos ele continuar chorando, torne a entrar, verifique (um minuto) que não há nada, e volte a sair do quarto. Se após vinte minutos ele continuar chorando etc. Se após três horas ele continuar chorando, alimente-o e recomece.
As duas últimas instruções do Dr. Taubman me parecem especialmente importantes: é impossível superalimentar um bebê por oferecer-lhe muita comida (que o digam as mães que tentam enfiar a papinha em um bebê que não quer comer); e é impossível estragar um bebê dando-lhe muita atenção. Estragar significa prejudicá-lo. Estragar uma criança é bater nela, insultá-la, ridicularizá- la, ignorar seu choro. Contrariamente, dar atenção, dar colo, acariciá-la, consolá-la, falar com ela, beijá-la, sorrir para ela são e sempre foram uma maneira de criá-la bem, não de estragá-la.
Não existe nenhuma doença mental causada por um excesso de colo, de carinho, de afagos… Não há ninguém na prisão, ou no hospício, porque recebeu colo demais , ou porque cantaram canções de ninar demais para ele, ou porque os pais deixaram que dormisse com eles. Por outro lado, há, sim, pessoas na prisão ou no hospício porque não tiveram pais, ou porque foram maltratados, abandonados ou desprezados pelos pais. E, contudo, a prevenção dessa doença mental imaginária, o estrago infantil crônico , parece ser a maior preocupação de nossa sociedade. E se não, amiga leitora, relembre e compare: quantas pessoas, desde que você ficou grávida, avisaram da importância de colocar protetores de tomada, de guardar em lugar seguro os produtos tóxicos, de usar uma cadeirinha de segurança no carro ou de vacinar seu filho contra o tétano? Quantas pessoas, por outro lado, avisaram para você não dar muito colo, não colocar para dormir na sua cama, não acostumar mal o bebê?


Bibliografia:
Lee K. The crying pattern of Korean infants and related factors. Dev Med Child Neurol. 1994; 36:601-7
Hunziker UA, Barr RG. Increased carrying reduces infant crying: a randomized controlled trial. Pediatrics 1986;77:641-8
Taubnan B. Clinical trial of treatment of colic by modification of parent-infant interaction. Pediatrics 1984;74:998-1003

Fonte:Bibliografia da doula

Um grande passo!


As doulas estão mesmo ganhando espaço! :) Acabamos de entrar oficialmente para a CBO (Cadastro Brasileiro de Ocupações). É uma grande conquista para que logo logo tenhamos a regulamentação da Doula como profissão!
Estamos quase lá!


 O que é CBO?

A Classificação Brasileira de Ocupações – CBO, instituída por portaria ministerial nº. 397, de 9 de outubro de 2002, tem por finalidade a identificação das ocupações no mercado de trabalho, para fins classificatórios junto aos registros administrativos e domiciliares. Os efeitos de uniformização pretendida pela Classificação Brasileira de Ocupações são de ordem administrativa e não se estendem as relações de trabalho. Já a regulamentação da profissão, diferentemente da CBO é realizada por meio de lei, cuja apreciação é feita pelo Congresso Nacional, por meio de seus Deputados e Senadores , e levada à sanção do Presidente da República.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Marchando juntas pela liberdade de escolha!

 


Agora não tem volta! As mulheres tomaram frente, se libertaram! E devagar, devagarinho estão re-conquistando suas vozes, suas escolhas, seus partos roubados...



Quando buscamos o direito da mulher de poder ter uma doula, estamos buscando humanização...respeito, informações com embasamento científico e  principalmente um parto respeitoso e com amor.

Aí então...surge mais um golpe contra as mulheres e contra o movimento de humanização do parto.

Na última semana, as maternidades Santa Joana e Pró-Matre, em São Paulo, divulgaram a (burra) decisão de não aceitar mais a presença de doulas nos partos realizados lá. Alegando como o motivo da tal decisão  a tentativa de reduzir os riscos de infecção hospitalar (oi?).
Depois voltaram atrás, dizendo que estavam refazendo o cadastro de doulas, desde que se tratem de psicólogas, fisioterapeutas, enfermeiras... Genteeeeeeeeeee, tá difícil!



Doula é doula! Não é psicóloga! Não é fisioterapeuta! Não é enfermeira!
Doula é SIM uma profissional pertencente a uma equipe multidisciplinar de atendimento ao parto.

Enfim...a ciência já reconhece os benefícios trazidos pelas doulas às parturientes, mas alguns hospitais temem que suas altas taxas de cesáreas (90%) possam com isso diminuir né... já pensou que problemão!



Mas AZativistas não deixam barato! E lá foram elas...mais uma vez...UNIDAS! LINDAS e de VERMELHO sanguenoZóio para a avenida Paulista!  e o resultado foi assim...EMOCIONANTE!



Por Ana Cris: " Começou com a concentração na frente da Gazeta. Carro de som nos esperando, e 1000 balões coloridos. As pessoas começaram a se juntar, e começamos o aquecimento. Anna Gallafrio soltou a voz, vamos lá meu povo, quais são as notas?? DÔ-LA DÔ-LAAAA
Atravessamos a Av Paulista escoltados pelo CET e pela PM, gente finíssima! No carro de som o microfone passando de mão em mão, com as frases todas, as músicas, as falas. Uma menina que era representante do Santa Joana ficou lá espalhando que o cadastro estava aberto às doulas psicólogas, fisioterapeutas e enfermeiras. Explicamos a diferença para a imprensa. Fomos seguindo pela Paulista até o Shopping. O carro de som foi embora e fomos só na voz, dobramos à esquerda, depois à direita na R. Dr Eduardo Amaro, que é o dono do Santa Joana. Entramos à esquerda na Apeninos e depois entramos na Rua do Santa Joana. Quando entramos, uma onda de silêncio: shhhhhhh hospital, pessoal, vamos fazer silêncio! Shhhhhhhhhh. Em silêncio ocupamos toda a calçada do hospital, que estava bloqueado com uma faixa para não entrarmos além da calçada.
Então as pessoas foram se sentando em silêncio no chão, com suas crianças, carrinhos, bexigas flutuando.
Kiara Terra então contou a história da D. Certeza, que decidiu atravessar o rio junto com sua doula. Em seguida, eu li a carta que iríamos entregar no Santa Joana.
Após a leitura da carta, pedi um minuto de silêncio por cada mulher que teve seu parto roubado, isso foi tãããão emocionante, porque daí as mulheres também começaram a levantar suas mãos e eu falei alguns nomes ali presentes.
O povo no hospital apinhado na porta tirando fotos das faixas e das pessoas. Os seguranças com cara de malvados, ui que medo...
Após o nosso minuto de silêncio, Gisele Leal encabeçou uma comissão de entrega da carta e do abaixo assinado de 5200 assinaturas, que foi recebida por uma representante do hospital.
Agradecemos à presença de todos e nos dispersamos em paz."




Leia abaixo a carta entrega à direção do Grupo Santa Joana:

São Paulo, 03 de fevereiro de 2013.

Aos Dirigentes do Grupo Santa Joana.

Nós, do Movimento de Humanização do Parto., uma rede de mulheres, homens e profissionais da saúde, que em uma semana compôs o Movimento de Mulheres e Homens pelo Direito a uma Doula, para lutar contra as arbitrariedades impostas pelo Grupo, vimos por meio desta informar nossos pedidos.

1) Que as Doulas sejam recebidas, e bem recebidas como membros da equipe multidisciplinar de atenção ao parto, independentemente da presença dos acompanhantes famíliares;

2) Que o trabalho das Doulas seja facilitado, e não dificultado;

3) Que o cadastro, se houver, seja aberto a qualquer Doula que tenha sido certificada e capacitada como tal, independente de ser ou não Psicóloga, Fisioterapeuta, Enfermeira ou ter qualquer outra profissão específica;

4) Que fotógrafos de fora do hospital, contratados pelas famílias, sejam admitidos nos ambientes tanto quanto os fotógrafos que vendem seus serviços no saguão dos hospitais;

5) Que as mulheres saudáveis sejam tratadas como mulheres saudáveis, com liberdade, sem restrições, com acesso fácil a alimentação, hidratação natural, espaço para caminhada, banheira, chuveiro, etc.;

6) Que as equipes que trabalham com partos naturais sejam bem recebidas, mesmo atendendo partos longos, que ocupem a sala de parto por muitas horas;

7) Que o plano de parto dos casais seja reconhecido como documento, respeitado e integrado ao prontuário;

8) Que as mulheres possam ter seus bebês na água, se assim lhes convier e os seus médicos julgarem seguro;

9) Que bebês saudáveis sejam imediatamente entregues ao colo de suas mães, antes de passar por procedimentos e mantidos com suas mães, sem passar por berçário de observação;

10) Que o alojamento conjunto e o apoio irrestrito ao aleitamento materno seja a regra para bebês e mães saudáveis

Segue Petição Pública em forma de Abaixo Assinado, que solicita o reconhecimento das Doulas.

Atenciosamente,

Movimento de Humanização do Parto.


ASSINE A PETIÇÃO

Uma petição pública “Pelo direito da Gestante ser acompanhada por uma doula durante o trabalho de parto, parto e pós parto em qualquer hospital brasileiro” também está a espera de sua assinatura:
http://www.peticaopublica.com.br/?pi=doulabra

Fotografias www.carlaraiter.com.br
 








Movimento das Mulheres e Homens Pelo Direito a uma Doula (Em qualquer hospital brasileiro durante o pré parto, parto e pós parto).


É hoje, na av. Paulista nº900.

Não deixem de participar!!!

Doula a quem doer!

Quando em 2001 o primeiro curso de formação de doulas teve lugar no Brasil, por iniciativa de um médico obstetra, ninguém poderia imaginar a importância que essas profissionais teriam num futuro tão próximo. Naquela época raras pessoas sabiam o que era uma doula e sua função. Apesar de ainda hoje se fazer muita confusão, muita gente já conhece as funções a elas atribuídas, sua importância e seu papel no cenário da assistência ao parto.

A doula Maíra Duarte ajuda a mãe Alcione Agnes uma hora após o nascimento de Giulia - www.carlaraiter.com

Fotografia: www.carlaraiter.com
Na foto, a doula Maíra Duarte ajuda a mãe Alcione Agnes uma hora após o nascimento de Giulia.
Doulas são mulheres treinadas para dar suporte durante o parto. Embora elas não possam executar a parte técnica da assistência, têm papel importante durante o processo, o que faz a maior diferença nos resultados. Em outras palavras, pensando num mesmo público, mesma maternidade, mesma equipe de médicos e enfermeiras, são as mulheres acompanhadas por doulas as que serão mais beneficiadas. Os estudos mostram redução de 20% nas taxas de cesariana e de 30% nos nascimentos de bebê com baixa nota nos primeiros minutos de vida, para citar alguns parâmetros, tudo isso sem nenhum efeito deletério.
Os dois modelos de atuação são as doulas do setor privado, remuneradas por seu trabalho de atendimento a clientes que as contratam, e as doulas voluntárias, que trabalham no sistema público sem conhecer anteriormente as gestantes que vão atender. Nos países do primeiro mundo, como Estados Unidos por exemplo, as doulas já estão ativas na assistência há mais de 30 anos.
No Brasil existem entre 2 mil e 4 mil doulas atuantes entre os dois setores, embora não haja um número oficial ou um cadastro único. Neste 31 de janeiro, o Ministério do Trabalho lançou a nova versão da Classificação Brasileira de Ocupações onde figura, pela primeira vez, a ocupação de doula. Não existe uma profissionalização oficial, tal qual ocorre em outras ocupações em que não há execução de procedimentos de risco para a população. Tal qual fotógrafos e cinegrafistas que adentram o recinto do parto, as doulas não executam procedimentos médicos ou de enfermagem, não oferecendo, portanto, riscos à população. As funções básicas da doula são: acompanhar, acalmar, oferecer suporte emocional e físico, realizar massagem localizada, sugerir movimentos, respirações, atitudes, enfim, uma miríade de ferramentas que ajudam a mulher a atravessar o intenso processo que é dar à luz um bebê.
Uma grande polêmica ocorreu essa semana quando dois grandes hospitais privados da capital paulista proibiram a presença de doulas nos partos, alegando risco de infecção, e recuaram após imensa repercussão na mídia e nas redes sociais. A questão, no entanto, passa longe dos alegados riscos.
Estamos falando de relações de poder, de interesses econômicos, de falta de gerenciamento do setor privado.
Uma boa parte dos hospitais privados do Brasil apresenta taxas de cesarianas superiores a 90%. As cesarianas marcadas são o pilar de sustentação financeira das maternidades privadas. Partos normais, apesar de mais seguros, causam prejuízo, ocupam imprevisivelmente o leito por muito tempo, dão trabalho à enfermagem, não têm hora para ocorrer e não podem ser controlados. Doulas, acompanhando mulheres em trabalho de parto que querem muito um parto natural, perturbam a ordem natural de um centro cirúrgico estruturado para cesarianas pré-agendadas. Doulas pedem água, alimentos e explicações. Mulheres acompanhadas de doulas desobedecem às regras da instituição, questionam, desafiam. Pais acompanhados de doulas são mais protetores e questionadores. Doulas incomodam, partos normais incomodam.
Enquanto todos os setores do nosso país não assumirem que as mulheres estão sendo roubadas em seus partos, tanto no setor privado, com suas cesarianas agendadas, quanto no setor público, com seus partos altamente medicalizados e violentos, não poderemos avançar de fato nas crises profissionais. O problema não são as doulas e sua regulamentação. O problema não são as alegadas infecções provocadas pela presença de mais um acompanhante. Estamos falando de um processo de violência coletiva que vem se perpetuando há décadas em nosso país, sob os olhos semicerrados do governo, da Agência Nacional de Saúde Suplementar, do Ministério da Saúde, das secretarias.
Se nem a Lei do Acompanhante é obedecida em mais da metade das instituições paulistas, o que se dirá de uma iniciativa que deve ser tomada de livre e espontânea vontade pelas instituições para melhorar a assistência às mulheres que desejam um parto suave, prazeroso, positivo, acolhedor? Ainda temos um longo caminho a percorrer, e as doulas continuarão a ter um papel fundamental nesse processo.

ANA CRISTINA DUARTE, OBSTETRIZ PELA USP E INSTRUTORA EM CAPACITAÇÃO DE DOULAS, É COORDENADORA DO GRUPO DE APOIO À MATERNIDADE ATIVA (GAMA) E AUTORA DE PARTO NORMAL OU CESÁREA? O QUE TODA MULHER DEVE SABER - E TODO HOMEM TAMBÉM (UNESP)

Fonte: Estadão