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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O normal é o natural






Maternidade Sofia Feldman: parto pode ser feito dentro da água



Ações isoladas, como a de pessoas com curso superior que abraçam a profissão de parteira, ajudam a mudar aos poucos um triste cenário no Brasil, que é campeão mundial em cirurgias cesarianas.

Na Europa e nos Estados Unidos, as parteiras são referência. Lá, existem casas bem equipadas e movimento consolidado de humanização, que prioriza o nascimento natural. Intervenções, como a cesariana, só em casos comprovados de riscos à gestante ou ao bebê, restritas a 15% ou 20% do total, índice bem próximo dos 15% preconizados como ideais pela Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, ocorre o inverso: impera a cirurgia em quase 80% dos partos em hospitais privados. Na rede pública o índice também é alto, com média de 30% a 40%.

Quando se fala no assunto, muitos brasileiros ainda associam parteiras ao imaginário de experientes mulheres, que aprendiam o ofício na prática e o transmitiam entre descendentes. De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde, existem cerca de 300 parteiras tradicionais atuantes em Minas Gerais. A maioria delas encontra-se na região do Vale do Jequitinhonha. Desde 2001 o estado reconhece o trabalho dessas mulheres, oferecendo-lhes cursos de aperfeiçoamento. “Elas foram capacitadas a identificar riscos, a estimular clientes a fazer o pré-natal, ganharam kit de material asséptico e passaram a ser elos das equipes médicas da região”, explica a obstetra Márcia Rovena de Oliveira, da Coordenação da Saú­de da Mulher, Criança e Adoles­cen­te.

Bem próximo dali, em Trancoso (BA), a parteira Maria da Glória Teixeira Conceição, 63, é referência local. Dona Glória, como é conhecida, já fez mais de 200 partos, desde que aos 21 anos abraçou a profissão da mãe, Maria Vieira, e da avó, Maria Teixeira. Com as parentes e mais as amigas Frozina, Maria de Irene, Engelina e Igina, dona Glória formava a equipe de parteiras da região. Hoje é a única em atividade, e é tão requisitada que já fez partos com a presença de tradutor, pois foi escolhida por turistas italianas, norte-americanas, alemãs e uma filipina para acompanhar o pré-natal e fazer o procedimento. Dona Glória tem estatística de causar inveja: nunca uma parturiente morreu sob seus cuidados. “Não havia hospital por perto, nem clínicas. Íamos até as casas a cavalo, de bicicleta, a pé, de carro, já fui até na garupa de moto, debaixo de sol ou chuva”, conta. 

Tal realidade vem ganhando ares contemporâneos. Seria uma espécie de volta às origens: enfermeiras obstetras utilizam todo o conhecimento para atuarem como parteiras profissionais, acompanhando gestantes de baixo risco. Foi o que aconteceu em dezembro passado com a nutricionista Andrea Santa Rosa, mulher do ator Márcio Garcia (o Bahuan de Caminho das Ín­dias). Ela escolheu ter em casa seu terceiro filho, Felipe, com a parteira profissional Heloísa Les­sa. O menino nasceu saudável, com 3,9 quilos. Na época, Andrea declarou que “a mulher que não faz um parto assim não sabe o que é parir.” Já a atriz e modelo Fernanda Lima é garota-propaganda de uma campanha de parto normal, depois que deu à luz dessa forma, em abril de 2008, aos gêmeos Francisco e João. “Sendo pessoas públicas e famosas, am­bas contribuem para quebrar pa­drões e mitos. Antina­tural é a cesaria­na”, diz a enfermeira obstetra Miriam Rego Leão,  parteira profissional que assiste partos domiciliares e em hospitais. Professora de obstetrícia e saúde da mulher da PUC Minas, ela faz parte do Movimento BH pelo Parto Normal, da prefeitura, e da ONG Bem Nascer. “Muitas práticas adotadas nos hospitais desfavoreceram que o par­to fosse um momento prazeroso e saudável para a mulher. Ele passou a ser uma vivência traumática, associada a processos cirúrgicos. Ago­ra partimos para um meio termo, modelo humanístico que utiliza toda a tecnologia disponível, mas que torna a mulher partícipe do processo”, conta Míriam.

Outra que atua ostensivamente para o fim da cultura da cesariana é Márcia Koiffman. Mãe de três filhos, todos nascidos naturalmente, a então advogada abandonou a carreira há 15 anos para se dedicar à enfermagem, com foco nas parturientes. Fez especialização e mestrado em obs­tetrícia. Há quatro anos fundou, em São Paulo, a Primaluz – Parteiras Profissionais, em parceria com a também enfermeira obstetra e doutoran­da Priscila Colacioppo. “Des­de então, são mais de 150 partos feitos, sendo que só eu tenho 600 na carreira, e Priscila, mais de mil.” A dupla conta com o apoio de dois médicos pediatras e uma ginecologista. A paciente pode escolher fazer o parto em casa ou em hospital.
Aliás, existem hospitais que oferecem a possibili­dade de realizar partos dentro d’água. É o caso do Sofia Feldman, em Belo Hori­zonte. A maternidade é pioneira em Minas Gerais ao instituir, em 2001, uma casa de parto na qual é priorizado o parto humanizado, com capacidade para 150 atendimentos por mês. A paciente pode escolher como ter o bebê, a melhor posição, ou se prefere métodos não farmacológicos para alívio da dor.

Mas e quando a futura mamãe escolhe o próprio marido para atuar como parteiro? Ao engravidar da segunda filha, Juliane, hoje com 23 anos, a médica pediatra Marli Cristia­ne da Silva tomou uma atitude ousada. Na época, ela cursava o primeiro semestre de medicina na UFMG. Comprou toda a literatura disponível e resolveu treinar seu marido para fazer as vezes de parteira. A decisão pegou de surpresa o engenheiro eletricista Marcelo Campi Lima, avesso a sangue e a ferimentos. “Aos poucos ela foi me convencendo. Meu maior medo era haver uma complicação de última hora.” Tudo correu de forma tranquila. Bruna, 20, a caçula do casal, também foi planejada para nascer em casa. Um descolamento de placenta, aos oito meses de gestação, levou a mãe ao hospital. “Sempre fui radical em minhas decisões. Hoje, se tivesse que repetir o que fiz, poderia até escolher uma parteira, mas com assistência técnica melhor, com aparelhos, em um centro de saúde com mais recursos. Continuo defensora do parto natural, convenço muitas pacientes a fazer o mesmo. Os movimentos dos músculos do canal vaginal sob o neném ajudam a expulsar os líquidos que ficam retidos no pulmão e vias aéreas do bebê”, diz a médica. A esta altura o leitor pode estar se questionando: e o parto da primogênita de Marli, como ocorreu? Foi com uma parteira, em Uruguaiana (RS).

Diferenças entre as vias de parto:

Parto normal
  • Rápida recuperação
  • Me­nos dor pós-parto
  • Menos complicações
  • Amamentação facilitada
  • Curto tempo de internação
  • Menor risco de o bebê nascer prematuro
  • Não-necessidade de separar mãe-bebê

Cesariana
  • Podem ocorrer complicações da anestesia e cirurgia
  • Pro­blemas de cicatrização (queloides)
  • Formação de gases
  • Hemorragias e infecções
  • Há chance maior de retirada do bebê do útero ainda prematuro
  • Riscos em futuras gestações, como ruptura do útero, placenta mal posicionada ou que não se desprende do útero
  • Abalo emocional de ter o filho separado do convívio nas primeiras ho­ras após o nascimento, o que desfa­vorece a amamentação
  • Risco de morte é 7 vezes maior para a mulher e 2 vezes maior para o bebê se comparado ao parto normal


Fonte
Texto: Vanessa de Cobucci | Fotos: Pedro Vilela

Pesquisa mostra que gestantes precisam de mais informação para optar por parto natural

A informação sobre os procedimentos a que serão submetidas é fundamental para que as mulheres optem pelo parto natural. A conclusão faz parte de um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“As mulheres que escolhem parto humanizado se informam antes”, aponta Rosamaria Giatti Carneiro, autora da tese Cenas de Parto e Políticas do Corpo: uma Etnografia de Experiências Femininas do Parto Humanizado.

Para a antropóloga, é fundamental que as mulheres conheçam os procedimentos médicos e saibam das consequências da opção (cesárea ou normal) para a própria saúde.

A pesquisa qualitativa acompanhou 18 grávidas, portais e grupos de discussão na internet sobre gestação e parto humanizado e aponta como atitude e decisão das mulheres a escolha da forma do parto, como de cócoras, em casa ou mesmo no hospital, mas com baixa dose de anestesia.

Para Rosamaria, a escolha pelo parto natural acaba por “resignificar” o fim da gestação.“Não é só um evento fisiológico ou ato médico. Elas relatam uma experiência rica e linda”. Ainda segundo ela, a escolha desconstrói o imaginário social de que parir dói. “O limite da dor é subjetivo”, destaca, antes de dizer que as mulheres que optam pelo parto natural sentem-se bem e confiantes.

Apesar das vantagens do parto normal, o Brasil é campeão mundial em cesarianas. Em 2010, o Brasil registrou mais cesarianas do que partos normais (52%). Na rede privada, o índice de partos por cesariana chega a 82% e na rede pública, 37%. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a taxa de cesarianas fique em torno de 15%.

Na opinião da antropóloga, muitas cesarianas são feitas porque as mães temem que o bebê possa ficar em “sofrimento”. “Se o médico usa essa palavra, as mulheres acabam optando pelo  procedimento cirúrgico.” Ela reforça, no entanto, que a decisão deve ser feita sob consulta médica e que os cuidados durante o pré-natal são fundamentais.

Fonte: aqui!